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3 de dezembro de 2010

A tradução que Gandhi fez dos ensinamentos de Tolstoi

Ocupando lugar central da sala de estar de minha casa, há impressionante quadro de um pintor polonês mostrando Tolstoi (1828-1910) sendo abraçado pelo Cristo coroado de espinhos. Ele está vestido como um camponês russo e parece extenuado como a simbolizar a humanidade inteira chegando finalmente ao abraço da paz depois de milhões de anos ascendendo penosamente o caminho da evolução. Foi um presente que recebi do então presidente da Assembleia Geral da ONU Miguel dEscoto Brockmann.


No dia 20, celebrou-se o centenário da morte de Tolstoi. Ele merece ser recordado não só como um dos maiores escritores da humanidade com seus romances "Guerra e Paz" (1868) e "Anna Karenina" (1875), dentre 90 outros, mas, principalmente, como um dos espíritos mais comprometidos com os pobres e com a paz, considerado o pai do pacifismo moderno.


Para nós teólogos, conta especialmente o livro "O Reino de Deus Está em Vós", escrito depois de terrível crise espiritual quando tinha 50 anos. Frequentou sábios e ninguém o satisfez. Foi então que mergulhou no mundo dos pobres. Foi aí que redescobriu a fé viva a "aquela que lhe dava possibilidade de viver". Tolstoi considerava essa obra a mais importante de tudo o que escreveu. Seus romances tinha-os como "conversa fiada de feirantes para atrair fregueses com o objetivo de lhes vender outra coisa bem diferente". Levou três anos para terminá-la. Saiu no Brasil pela Editora Rosa dos Tempos (hoje Record), em 1994, com bela introdução de frei Clodovis Boff, infelizmente esgotada.


O livro teve enorme repercussão, gerando aplausos e rejeições. Mas a maior influência foi sobre Gandhi. Mergulhado também em profunda crise espiritual, acreditando ainda na violência como solução para os problemas sociais, "a leitura do livro me curou e fez de mim um firme seguidor da não violência". Tolstoi foi excomungado pela Igreja Ortodoxa, e o livro vetado pelo regime czarista.


Qual a tese central do livro? É a palavra de Cristo: "Não resistais ao mal"(Mt 5,39). O sentido é: "Não resistais ao mal com o mal". Ou "não respondais à violência com a violência". Não se trata de cruzar os braços, mas de responder à violência com a não violência ativa: com a bondade, a mansidão e o amor. Em outra forma: "não revidar, não retaliar, não contra-atacar, não se vingar".


Essas atitudes possuem uma força intrínseca invencível, ensina Gandhi. Para o profeta russo, tal preceito não se restringe ao cristianismo. Ele traduz a lógica secreta e profunda do espírito humano que é o amor. Toca no sagrado que está dentro de cada um. Por isso, o título do livro.
Gandhi traduziu a não violência tolstoiana como não cooperação, desobediência civil e repúdio ativo a toda servilidade. Sabia que o poder se alimenta da aceitação, da obediência, da submissão. Estado e Igreja exigem essas atitudes. São instituições que tolhem a liberdade, atributo inalienável e definitório do ser humano. No frontispício do livro, lemos a frase de são Paulo: "não vos torneis servos dos homens"(1Cor 7,23).


Para Tolstoi, o cristianismo é menos uma doutrina a ser aceita do que uma prática a ser vivida. Está à frente e, não, atrás. Para trás parece que faliu. Mas à frente é uma força que não foi ainda totalmente experimentada. E é urgente praticá-la.


A mensagem é atual. Os grandes continuam acreditando na violência para resolver os problemas políticos.


Mas outros tempos virão.


Escrito por:Leonardo Boff

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